“Judith Butler: um pensamento diferente”, por Eduardo Rozenthal

Por Camila Appel

O blog “Morte sem Tabu” publica hoje um texto inédito enviado pelo psicanalista Eduardo Rozenthal, sobre a presença da filósofa Judith Butler no Brasil.

Judith Butler, um pensamento diferente

Por Eduardo Rozenthal

 

Conheci Judith Butler em 1994, quando participava do programa de professores visitantes a convite da Universidade da Califórnia em Berkeley. Inscrevi-me em seus seminários daquele segundo período do ano, interessado, principalmente, na leitura que a jovem filósofa fazia dos textos de Foucault e Derrida, bem como de Freud e de Lacan, utilizando-se de fortes entonações linguísticas. Da notória influência de Austin, sua interpretação daqueles autores acumulava os ecos, naquele momento bem audíveis, do debate entre Searle e Derrida, que tinha como base exatamente os “atos de fala” de John Austin. Butler havia recém-lançado o seu “Corpos que importam” (“Bodies that Matter”, 1993) livro que causara um certo rebuliço nos meios acadêmicos, cujos habitantes não puderam aquilatar a extensão do que lá estava, em embrião e, portanto, do que viria a ser germinado.

Desde os primeiros momentos, quando a vi no centro de uma sala abarrotada de alunos e outros pesquisadores como eu, ao redor de uma grande mesa de tampo verde, sua presença me causou forte impressão. De pequena estatura, cabelos curtos e engomados, vestindo um terninho negro, bem talhado e possuída por um ar de ausência, Judith parecia incomodada. Percebi que não era a constante demanda dos que a ouviam que a aborrecia. Era o texto que ela esmiuçava, diante da atenta audiência, que a deixava atônita, a ponto de extrair-lhe reiteradas interjeições, pequenos gritos e sussurros que diziam muito mais de sua relação afetiva com suas próprias questões do que com o que se passava naquele ambiente acadêmico. Tal impressão se manteve ao longo de todo aquele semestre, tornando-se mais evidente nas entrevistas particulares que tive com ela com o intuito de discutir um trabalho que eu escrevia a respeito de Michel Foucault. Os trejeitos, acompanhados de sons guturais, emolduravam os argumentos que se sucediam elencados com brilhante lógica e traduziam um pensamento de quem pensa diferente de si mesma – para não perder o aforismo foucaultiano.

Ao longo destes quase 25 anos, as ideias de Butler transitaram pelos mais diversos temas. Não lhe escaparam questões ligadas à linguagem, à política, ao poder, à guerra, ao judaísmo e ao tópico central que, é bem verdade, ela persegue desde o início, e que a tornou uma espécie de ícone teórico do empoderamento feminino. Refiro-me à “teoria queer” e à chamada de “terceira onda” do feminismo, para as quais a filósofa apresenta uma interpretação bastante peculiar.

O primeiro feminismo ficara para trás, quando as mulheres reivindicavam a sua legítima inserção na vida institucional, dado o fato de que os contratos, considerados na sua amplitude, só tinham validade se celebrados entre homens. A “segunda onda” também já se achava longe, quando a demanda das mulheres recaía sobre a liberdade de uso dos próprios corpos, tributários até então da dominação patriarcal e ultrajes machistas. Para a pensadora americana da terceira onda, as feministas não mais devem reivindicar, nem demandar o reconhecimento dos direitos sociais das mulheres. Tampouco a identidade de “mulher” lhes diz respeito. Ao contrário, todas e quaisquer identidades traem o feminismo ao enaltecer, implicitamente, os ideais patriarcais, cujo protótipo é a competição, hipervalorizada no mundo das acirradas disputas capitalistas.

Judith Butler – e ela não está só ao defender tais posições – aposta no primado da diferença e na deflação da identidade. De fato, Freud nos ensinou que a identidade é a propriedade capital do ego, que se estabelece por comparação entre este e os ideais da sociedade, os quais, “introjetados”, compõem uma segunda instância psíquica, denominada de “ideal do ego”. Se, por exemplo, a posse (desmedida) de bens é um valor central da atualidade, o ego se ampliará ao cumprir os desígnios impostos por este ideal. Contudo, implicitamente, ao fortalecer o ego, o que se mantém e solidifica, ainda mais, é o mandamento social que visa a posse e o consumo de bens que, em última análise, é a condição do radical desnível socioeconômico em que vivemos e de seus violentos desdobramentos. No jargão psicanalítico, dizemos que estamos diante do narcisismo exacerbado dos dias de hoje, condição do doloroso isolamento de que padecemos.

De forma idêntica, ao defender o respeito aos direitos sociais da mulher, o que acaba por se valorizar é o ideal de “Homem”, com o qual a mulher disputa e do qual, com o reconhecimento obtido, ela se diferencia. Contudo, os direitos eventualmente acolhidos relacionam-se à lei, cuja necessidade é exigida pelo dinamismo patriarcal. As diferenças ocasionalmente admitidas são parciais, onde a lei é, desde sempre, forjada pela semântica masculina que, antes de tudo, estabelece a própria comparação como operador de identidade. Neste território configurado a priori, não há possibilidade de mudança estrutural para a mulher. Por mais que ganhe, ela é diferente, só na parcialidade. Isto quer dizer que, fundamentalmente a mulher pertence ao universo masculino, do qual constitui um caso particular. O que se estabiliza, portanto, é o universo do Homem ou da humanidade que engloba a mulher como exceção.

Eis algumas das ideias centrais exibidas por esta filósofa que hoje, aos sessenta e um anos, em vias de retornar ao Brasil para uma palestra no SESC Pompéia, se choca com um abaixo-assinado com mais de 150.000 signatários que se manifestam contra a sua participação. Mas, afinal, qual o perigo que atravessa o pensamento de Judith Butler? O que, na sua participação, ameaça a ponto de precisar ser radicalmente suprimido, sem direito de colocar-se na mesa para o diálogo, devendo ser extinto antes mesmo de dizer ao que veio?

É que Judith Butler pensa com o corpo. A diferença a qual nos faz sentir não é parcial, senão total. Esta diferença não fala. A diferença total silenciosa é que nos faz falar, enquanto que ela própria se apresenta sempre em ato, fato, prática de si ou acontecimento – que acontece ao corpo. Para esta diferença, reserva-se o termo “singularidade”. A singularidade não é, portanto, identidade, senão diferença. Diferença total incomparável que designa o estilo de cada um, a maneira única como praticamos os atos de nossas vidas. Com a participação da singularidade, qualquer ato adere ao ego, tornando-se autoral. Esta é a via da criação estética ou artística que contesta o narcisismo, no qual o ego se compara e fortalece ao cumprir o mandamento do ideal. No âmbito da estética ou da arte, ao contrário, o ego se cria na medida da singularidade, sendo esta capaz de conviver com todas as outras, posto que não disputa a posse de nenhum ideal social comum. Ao contrapelo do isolamento narcísico, a criação nos aproxima ao propulsionar os encontros afetivos, sendo que, por este motivo, a arte é o instrumento da verdadeira revolução dos costumes.

No espaço da sexualidade, as linhas de força possuem a mesma estrutura. Os gêneros, no seu binarismo, instituem o masculino como identidade primordial, reservando ao feminino o lugar de particular que, como toda a exceção, confirma a regra. O mundo é masculino e o feminino busca, à força de reação, fixar a sua identidade. Ao fazê-lo, no entanto, dilata a identidade masculina, da qual tenta se discriminar, recrudescendo-se o confronto. A alternativa é a da singularidade. Nela, teremos de conviver com a ausência de gêneros pré-estabelecidos, sem identidades pret a porter nas quais tentamos, ainda que com altos custos, nos reconhecer. A sexualidade será singular ou não será. Eis a máxima da teoria queer. Não há qualquer origem biológica da sexualidade ou objeto preferido do desejo sexual que determine o gênero, senão as imperativas estratégias do comando dos poderes vigentes. Sem subterfúgios, nem estratagemas, será preciso criar-se enquanto sexualidade.

É assim que pensa Judith. E sua proposta é, de fato, perigosa para aqueles que desejam a manutenção do status quo, para os conservadores que reagem, isto é, repetem o mesmo, ao invés de resistir, sendo resistência, como quer Foucault, equivalente à criação do inédito. Estes reacionários não leram o que a filósofa escreveu. Se leram, nada entenderam. Mas, não se iludam, eles sabem o que fazem. O perigo do pensamento de Butler está na presença de seu corpo. Judith é perigosa por que seu pensamento corporal é feito de gritos e sussurros, apelos sedutores que convidam para o encontro. Pensamento de quem pensa diferente de si mesma, sendo esta a diferença total que convoca ao exibir, sem pudor, os confins de si onde está sendo gestado.

Eduardo Rozenthal: Psicanalista. Membro Titular da Associação Portuguesa de Psicanálise e Psicoterapia Psicanalítica. Doutor em Saúde Coletiva pela UERJ. Professor do Curso de Especialização em Psicanálise da USU. Professor Visitante na Universidade da Califórnia em Berkeley. Co-organizador do livro Psicanálise: uma prática teorizada, 2007. Autor do livro O ser no gerúndio: corpo e sensibilidade na psicanálise, 2014, ambos pela Companhia de Freud.