Chilique no Museu

Por Camila Appel

Quem deixou de dar um chilique no museu fui eu. Vejam vocês que a história se inicia comigo e minha filha de um ano meio, que é a coisa mais linda do mundo como vocês não devem ousar duvidar, no MIS, Museu da Imagem e do Som em São Paulo.

Era uma quinta-feira cedo e eu tinha meia hora para um passeio. Fiquei animada ao descobrir que a exposição de Renato Russo abriria de manhã. Fomos até lá para um momento mãe e filha, bem raro durante a semana. As exposições do MIS sempre me pareceram lúdicas e bem cenografadas. Eis que, logo na entrada da exposição, minha filha aponta para um enorme neon em vermelho no teto e diz: olha mamãe, a lua!.

Eu fiquei impressionadíssima. Primeiro, porque ela falou. A menina tem um ano e meio, vejam bem. Segundo, porque ela articulou uma frase inteira. Terceiro, pela capacidade de abstração que ela teve em ver, em um círculo vermelho com um A na frente, a lua. Ela podia ter dito: a bola ou, a luz, ou como seria de se esperar, nada. Eu poderia ter dito: mas filha, a lua não é vermelha. Só que eu sou um ser humano apaixonado pela cria e me desabei de emoção.

Felicidade interrompida. Uma mulher, já vou logo dizendo bem carrancuda e mal humorada, surge do além. A exposição tinha acabado de abrir, não havia alma viva nem morta por ali. Mas essa mulher fantasmagórica estava presente, e acompanhada. Eu não tinha reparado nela. Enfim, ela se vira e diz com um tom bem cínico: “sua filha acabou de chamar o símbolo do anarquismo de lua???”.

Eu fiquei sem reação com tal grosseira. Não necessariamente pelas palavras, mas pela entonação. E continuou: “já que trouxe a menina aqui, vai ensinando ela vai, ensina a ela o que é bom”.

Fiquei muda.

E segui meu caminho com timidez. Fiquei amparando a menina, que corria por todos os cantos, especialmente animada com uma área maravilhosa de projeção de shows e panos esvoaçantes. Eu digo amparando porque, nessa idade, você fica com os braços estendidos em volta do neném, amparando seu desequilíbrio.

Meu olhar era o de constrangimento. Senti que eu não deveria estar ali, ou que ela não deveria estar ali. As pessoas me olhavam e eu achava que elas estavam me reprimindo, cochichando: o que essa mulher faz com uma criança aqui? Pisei em ovos. E na verdade, eu me sinto assim há muito tempo: pisando em ovos.

Ontem, uma amiga comentou sobre aquela polêmica do MAM, dizendo que não concordava com nus em exposições para crianças porque ao verem o nu com tanta naturalidade, teriam dificuldade de distinguir um assédio. Outra me contou que está ensaiando a filha de 3 anos a falar “vagina”, para gritar a palavra caso um estranho se encaminhar por ali. “É minha vagina, vagina!”.

Uma prefere esconder, a outra, escancarar. No fundo, as duas se sentem perdidas diante uma triste realidade.

Eu sou a favor do escancarar. Vejo a arte como um espelho importante da realidade e uma ferramenta necessária de provocação. Sei que é uma posição polêmica, mas não deixo de escutar opiniões contrárias e não saio por aí dando lições de moral. Me considero uma pessoa equilibrada que prefere pensar, primeiro, que o outro pode sim ter razão, ao invés de partir do pressuposto de que todo mundo está errado.

Sim, precisamos de maior compreensão. De escutar, de debater e contra-argumentar.

Mas também é necessário ser firme, não se deixar ser coagido. Se não, ficaremos sempre sonhando com o que deixamos de fazer, com o que deixamos de falar. Como eu, nessa noite mesmo, mergulhada nas imagens oníricas da válvula de escape, me vi plantada naquele cenário, dando um verdadeiro chilique no museu. E acordei feliz.