O “Uber” da morte (um aplicativo para serviços funerários)

Por Camila Appel

Até que demorou.

Será lançado, oficialmente hoje, o aplicativo Ipax que reúne informações sobre o serviço funerário. O aplicativo oferece um passo-a-passo com providências a serem tomadas, uma lista de fornecedores de serviços funerários e cemiteriais, com direito à reputação de acordo com avaliação dos usuários e espaços para negociação.

Na introdução, há uma comparação com o efeito “uber”, justificando a criação do Ipax com uma tendência. “Foi o que a Amazon fez com as livrarias, a Netflix fez com a televisão, o que o Airbnb fez com a hotelaria, o que o WhatsApp fez com a telefonia e o que o Uber fez com o transporte de táxi nas metrópoles.”

Como falar de morte ainda é muito delicado, imagino que essa seja uma tentativa de diminuir as chances de rejeição do aplicativo, já que muitos criticam uma possível “mercantilização da morte”.

O jornalista e consultor de negócios Edvaldo Silva, idealizador do Ipax, diz ver uma forma de informar a sociedade sobre suas opções e, assim, diminuir a vulnerabilidade para agentes informais, chamados em São Paulo de “papa-defuntos”.

O Ipax (i de informação e pax de paz em grego) é fruto de uma demanda identificada por Edvaldo como uma oportunidade. “Eu ouvi muitos relatos de quem encontra complicações quando um parente morre. As pessoas acabam não sabendo o que fazer e terminam pagando mais caro do que o necessário. Alguns nem conseguem velar o corpo porque precisam ficar atrás de documentação”, diz.

Essa dificuldade de acesso à informação, apontada por Edvaldo, é muito prejudicial. Ele cita a dificuldade em saber o que fazer com os restos mortais também, como exemplo.

Como pode haver um estranhamento em ter um aplicativo sobre morte no celular, o Ipax também vai funcionar pelo site, como uma plataforma de fonte de informação.

Inicialmente, terá foco na cidade do Rio de Janeiro, com parceiras de estabelecimentos públicos e privados que pagam uma mensalidade para o cadastro no aplicativo. Seu lançamento oficial será hoje, às 14h, na Coordenadoria Geral de Cemitério e Serviços Funerários do Rio de Janeiro. Edvaldo diz desejar uma expansão nacional.

Me chamou atenção a seção “monte um funeral”, indicando o acesso à loja virtual. Há não muito tempo atrás, isso seria impensável. A elaboração do funeral era de responsabilidade de líderes religiosos, que definiam a ordem dos acontecimentos, os códigos de conduta e os textos a serem lidos.

Acho bem-vinda a possibilidade de idealizarmos um funeral que tenha um significado pessoal. Chego a imaginar vídeos e textos desenvolvidos especialmente para aquela família, com músicas, comidas e essências que remetam a um histórico cultural específico e ajudem na composição de uma despedida, e como consequência, na elaboração do luto que está prestes a se iniciar. O Ipax ainda não chega a esse patamar, mas pode ser visto como a indicação de uma mudança cultural forte. O empoderamento de cada um de nós para elaborar rituais que façam sentido em nosso núcleo familiar. Seria a concepção de um ritual personalizado, que pode englobar características de uma determinada religião, mas que não se limite a ela, possibilitando liberdade de escolha.

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