Depoimento:A funerária é o meu lar

Por Camila Appel

A jornalista de 24 anos, Monique Pimentel, escreveu um depoimento ao blog. A casa onde cresceu também funcionava de sede para o local de trabalho do pai: uma funerária. É um relato que nos aproxima das pessoas que se dedicam ao setor funerário. Não deixa de ser um negócio, que tem o potencial de ser cada vez mais humanizado e profissionalizado se discutido abertamente. Nosso tabu da morte é tão grande, que pouco percebemos olhares como o de Monique, que cresceu em um ambiente intenso, respeitoso, e bonito também.

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 A funerária é o meu lar

Por Monique Pimentel

Em muitas noites, acordei com choros inconsoláveis de pessoas que eu não conhecia. A janela do meu quarto ficava de frente para o estacionamento da funerária. Era onde chegavam as famílias de quem morria, geralmente menos de um hora depois da notícia. Enquanto a viúva (o) e os filhos se acostumavam com a ideia, escolhiam o melhor traje para entregar seus entes queridos à “vida eterna”.

Flores, coroas, cestos. Faixa de homenagem, bandeira e terço. Os últimos passos de todo mundo era decidido bem ali: na minha casa. Antes de subir as escadas para atender, vinha a ordem do meu pai “shiu, tem gente ai!”. Então, os minutos de silêncio começavam. Meus irmãos empurravam os carrinhos de brinquedo vagarosamente e em tom de cochicho se comunicavam.

Nossa vida era normal, mas gerava curiosidade nos colegas e professores de escola. Enquanto a família estava lá em cima, com meu pai, decidindo os rumos do morto, o movimento na nossa casa começava a aumentar. Estacionava o carro do motorista que tinha sido acionado para trabalhar. O puxa-puxa de caixão para ir buscar o corpo no IML, hospital ou sei lá onde. Alguém passava um café na cozinha. Chegava outro agente funerário para ajudar na preparação. Todos apreciavam o recém passado e comentavam sobre o estado do defunto. Em casos muito trágicos, eu e meus irmãos arregalávamos os olhos e começávamos a especular: “mas arrancou a cabeça? Saiu fora?”. E minha madrasta amenizava “só machucou”. “Ah bom!”, exclamávamos aliviados, sempre aos cochichos.

Era, então, que descia meu pai com as orientações para os agentes. “Usem aquele de cerejeira”, dizia, às vezes, sobre a urna vendida. Quando ele estava lá embaixo, a adrenalina começava a baixar. Ele sempre dava um jeito de nos acalmar. Quando era noite, eu deitava na cama, ele me cobria. Eu continuava ouvindo a movimentação. Ele me dava um beijo na testa e eu dormia. Fiquei maior, e ele bateu na porta do meu quarto pedindo uma base emprestada para usar nos mortos. Minha relação com os cadáveres ficava ainda mais estreita. Agora, dividíamos maquiagem.

Os dias eram estranhamente divertidos. Minhas amigas tinham medo de dormir na minha casa. Até que se acostumavam. E aí não queriam mais parar de conhecer o meu mundo. Meu pai se escondia no meio dos caixões e nos dava susto. Elas se apavoravam. Mas ele sempre me ensinou a respeitar a dor alheia. Qualquer dor, principalmente a da morte. Não tem tabu! Na minha casa, conversamos sobre os mortos com tranquilidade. É de muita responsabilidade ouvir a dor alheia ainda fresca. As pessoas estão fragilizadas. Foi assim que aprendi. Faço analogia com isso para qualquer situação da minha vida.

Hoje sou jornalista. A funerária é no interior de Santa Catarina. Seis meses atrás resolvi morar em Salvador. Não deu certo. Fiquei uns dias na casa do meu pai até que voltasse a trabalhar em Porto Alegre. Não sinto mais o medo profundo dos caixões brancos, como quando era pequena. Aprendi que são armários que guardam mortos, e os levam para o cemitério. Só isso. Nada místico. Mas sei que, assim como quando criança, a funerária é o meu lar.