Últimos socorros: para no final, saber o que fazer

Estar ao lado de uma pessoa amada em processo de morte ativa traz um sentimento de impotência devastador. Não somos treinados tecnicamente ou psicologicamente para acompanhar um processo desses.  A medicina oferece ferramentas para a cura de diversas doenças mas não cura a morte em si. Uma hora, nosso corpo vai parar. Ele vai parar de funcionar.  Isso ocorre aos poucos, dependendo da doença irreversível que o acarreta. Não precisamos ser profissionais da área da saúde para acompanhar esse movimento, mas ter informação para isso é essencial. Lembro quando acompanhei a morte do meu sogro. Me via cheia de dúvidas, ele deve ou não receber água? Ele deve receber alimento? Ele está com dor? Os médicos têm sempre razão? Esse som é… normal? Afinal, o que é normal? Para mim, a morte é natural mas não consigo vê-la como normal. Ela é um absurdo necessário.

Foi pensando em como oferecer apoio aos acompanhantes leigos, que a enfermeira Karin Schmid adaptou o curso de últimos socorros para o Brasil.

Karin se formou na Alemanha, onde acompanhou a morte dos pais. “Quando minha mãe morreu, em 2005, eu ainda não tinha feito enfermagem. Mas ela me mostrou que morrer não é algo horrível. Não tem que ter sofrimento. Foi ela que me levou à oncologia e aos cuidados paliativos. Ela teria ficado feliz se pudesse ter sido mais tarde, mas já que não seria possível a cura, ela entendeu e conseguiu lidar bem. Também teve a sorte de ter médicos, na Alemanha, que faziam acompanhamento domiciliar. Ela morreu em casa”.

Quando seu pai morreu, em 2017, Karin já era formada em cuidados paliativos em enfermagem e diz ter sentido na pele a diferença que esse conhecimento pode fazer.  Decidiu retornar ao Brasil para atuar nessa área. “Fiquei bastante feliz ao ver que a rede paliativa do Brasil tem crescido. O tema está aparecendo mais na mídia, possibilitando cursos como o nosso. No ano passado, foram 5 cursos, com média de 7 a 10 participantes. O primeiro desse ano estava esgotado um mês antes dele acontecer”.

O curso, “últimos socorros”, é dividido em quatro partes:

  • A morte faz parte da vida – Ela é natural e falar sobre o assunto já muda toda a perspectiva. Também se fala sobre a pesquisa de como se morre no Brasil, com dados, e a rede de cuidados paliativos.
  • Planejamentos – diretivas antecipadas. O que são, o que pode ser feito ou não.
  • Aliviar o sofrimento – dor e sofrimento como conceito e aborda os sintomas mais recorrentes de dor, dispneia, a inapetência da alimentação no final da vida. Se deve, não deve, porque ou porque não alimentar no final da vida.
  • Despedida –  o luto. Há algumas dicas sobre rituais. Não existe maneira certa ou errada de estar enlutado…

Para Karin, o mais importante desse processo todo é tirar o medo e a angústia do familiar e do paciente. “O maior medo do familiar é não saber o que fazer e, quando faz, achar que ta fazendo errado. No processo de morte, a pessoa vai morrer e na maior parte das vezes a gente não quer isso. Por mais que a gente faça o melhor de nós, ela vai piorando. O familiar sente mal… ah se eu tivesse dado um copo de água a mais ou a menos, teria vivido mais tempo, não teria engasgado, não teria tido a pneumonia….”.

O maior questionamento que normalmente aparece dos atendentes desse curso é sobre como aliviar o sofrimento, do familiar e o próprio.

Ainda tenho a esperança de que é possível morrer bem. Já encontrei diversos exemplos disso e vejo, a cada ano, mais pessoas, movimentos e instituições preocupados nesse sentido. Há uma mudança de paradigma em curso.

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Divulgação: Karin Schmid
Divulgação: Karin Schmid